O
desafio aos partidos comunistas
O
episódio Lula-Dilma-PT não pode ser olhado isoladamente e não apenas com os
olhos no Brasil. Cuba, Argentina e o que virá na Venezuela e Bolívia precisam
ser incluídos também com os olhos voltados para a Europa para a Ásia. O
comunismo, como escrevi na postagem anterior tem de ser refeito. Nasceu para
distribuir a riqueza que o capitalismo acumulou, mas não aprendeu a gerar
riquezas. Quando a distribuição escasseia, vem a grita e o povo quer mais, o
povo é capitalista, a nossa cultura universal é capitalista.
Então,
agora, o PT e seus ideólogos começam a filosofar. O partido está morrendo,
voltará àqueles 15% do eleitorado que é fissurado, os mesmos que saem às ruas
para quebrar tudo, mas que na segunda-feira batem à porta das mesmas empresas
para pedir emprego. Empregados, se declaram inimigos do empregador. Os
sindicatos da CUT e os outros serão convidados a se reciclarem. Capital e
Trabalho nunca foram inimigos. Juntos geram riqueza. E é nisso que o comunismo
afundou. Se não tem riqueza gerada não tem riqueza para distribuir. O
capitalismo não sabe distribuir, é verdade, mas vai ter que aprender, no
mínimo, com o cooperativismo, que retribui a cada um por aquilo que criou, sem
paternalismo, sem greve, sem contestação.
O
ideólogo Tarso Genro, ex-ministro da Justiça e ex-governador do depauperado
estado do Rio Grande Sul, futuro miserável da Nação, já está planejando o
partido que sucederá o PT e diz solenemente:
“Essa
crise vem da falência de ideias do bolchevismo clássico (e do bolivariano
romântico), com poucas exceções, da direitização da socialdemocracia no terreno
da economia, que entende que a “globalização” é um processo técnico, que
permite apenas um único caminho: da redução das funções públicas do Estado,
combinada com políticas compensatórias, que não conseguem coesionar a sociedade
em torno dos valores democráticos modernos. Esta crise vem, também, do fato de
que o PT vem se tornando um partido mais pragmático do que ideológico, no
sentido nobre desta expressão, deixando de se alimentar – em termos culturais e
programáticos – fora do circuito do poder estatal, usando métodos tradicionais
de governabilidade, para sobreviver aos processos eleitorais”.
É
isso, Tarso, o PT dependurou seus adeptos nos cargos públicos à exaustão e
tornou seus adeptos sofríveis trabalhadores da iniciativa privada, centrados no
que o patrão podia e tinha obrigação de distribuir. Esqueceu produtividade,
lealdade, compromisso. Decidiu buscar vantagens no grito, na paulada, na invasão,
na depredação. Agora, vai lá dizer para estudantes, trabalhadores, militantes,
que o capital é o objetivo de todos. E se o capital está com quem soube
acumular, cabe a quem o queira também aprender a produzir com eficácia, poupar
com parcimônia. E se o trabalhador não tem o capital, vamos ser parceiro do
empreendedor, negociar produtividade, acabar com as greves, parar de bater em
quem não é nosso inimigo e sim nosso parceiro.
A
esquerda na Venezuela afundou assim que o petróleo baixou de valor. Era uma
economia baseada na extração, como é a dos árabes. O dia em que o petróleo sair
de cena, todos os países árabes de esquerda e de direita se tornarão
miseráveis. Já são. Os refugiados que oferecem ao mundo é a prova.
Palavras
de Genro: “O PT surgiu num momento em que a classe operária industrial era
fundamental para pensar uma utopia socialista e democrática e a USP era um
referencial mundial para a esquerda. Os trabalhadores não são mais os mesmos,
as empresas são muito diferentes, a globalização avançou e ocupou terrenos
definitivos nas economias nacionais e qualquer ideia, socialista ou social –
democrática de corte republicano, com liberdades públicas amplas, não pode ser
pensada em torno dos contraditórios de uma sociedade de classes que já é
inteiramente outra. Qual é esse projeto exige, por exemplo, dizer qual é o
projeto para sair, no imediato, de uma crise econômica e financeira como essa
que está aí, por dentro da democracia, criando novos consensos democráticos, o
que a direita - por exemplo - não fez.
O
mesmo Tarso reconhece que a saída de Dilma é o principal impulso criativo para
promover uma nova Frente Política – que pode ser designada como de esquerda,
porque está à esquerda da atual frente com o PMDB – mas que, na verdade, deve
ser organizada em torno de um programa socialdemocrata renovado, como aquele
que moveu Tsipras, na Grécia e move o Podemos, Esquerda Unida e parte do PS
Espanhol, atualmente. Alguns companheiros me dizem que isso é muito pouco…Eu
respondo a eles que isso é quase uma utopia, face a situação de hoje!”
O
sociólogo da USP, José de Souza Martins, apesar de entender que “o ciclo
político do PT não acabou”, confessa que o partido está em crise e vivendo um
severo momento de desgaste e, quase certamente, de declínio eleitoral. Para
Souza Martins não há dúvida que o comportamento do PT em relação à Dilma é de
abandono, um modo de transformá-la, implicitamente, em bode expiatório da crise
que não começa com ela e sim com o caso do mensalão. Não é crise dela e sim do
partido.
Apesar
de conhecer muito de política, o sociólogo defende que o PT é, ainda, o único
partido que poderá ter um candidato certo e com chance de ser eleito em 2018,
que é Lula. Se não estiver preso, claro. Ele acha que o PT tem um eleitorado
cativo e duradouro, constituído por aqueles que optam pelo partido porque
optaram por Lula e optaram por Lula porque nele enxergam a personificação de
uma esperança profética e messiânica e que nenhum ouro partido político
brasileiro tem essa característica, tão brasileira, e ainda decisiva nos
enfrentamentos eleitorais. Seria um grande erro desconhecer ou mesmo desdenhar
essa caraterística do processo político brasileiro.
Mas,
como se vê, se o último maior líder petista solto acabar na cadeia, leva com
ele o PT e quase toda a esquerda brasileira que estava com Lula e com o PT,
decepcionados com a falta de pureza e virtude honrosa naquele operário da voz
rouca.
Tudo
isso porque não se pode esquecer que o PT é peça de uma trama articulada por
ele, Lula, e que envolve vários partidos políticos e um grande número de
pessoas com ele envolvidas. De certo modo, o declínio do partido arrasta
consigo outros partidos e políticos não petistas, a começar no PMDB e com ele,
o próprio vice-presidente da República. O impedimento de Dilma não encerra um
ciclo, apenas o fragiliza. Nem fortalece o PMDB, que agora terá que propor uma
nova aliança política de governo. Com algumas exceções significativas, uma
parte dos ministros já recrutados mostra que o elenco dos nomes disponíveis
para recompor o governo ou fundar um novo governo é pequeno e incapaz de
injetar confiança em relação ao mandato do sucessor.
A
fala do sociólogo revela um dado estarrecedor sobre o PT.
Para
Souza Martins, a crise do governo e a crise do PT não constituem crises das
esquerdas. O PT não é, propriamente, um partido de esquerda, a não ser na
retórica publicitária. Os 13 anos de governos petistas deixaram isso claro. O
partido manipulou os grupos populares, mas fez alianças significativas com
grupos de direita, como é o caso do agronegócio. As verdadeiras esquerdas estão
muito longe de alianças desse tipo. Por outro lado, as esquerdas brasileiras
estão muito divididas e muito fragilizadas. De classe média, estão longe dos
grupos referenciais de base da tradição de esquerda, como a classe operária e
os trabalhadores rurais. Hoje estão predominantemente circunscritas a grupos
constituintes do setor médio, como é o caso dos estudantes. Tendo, mesmo, que
se valer dos menores de idade da escola média, como os que ocuparam as escolas
nos últimos meses, para ter visibilidade política.
Mais
perto, então, estaríamos do fim da esquerda. Ela nem existiu.
É
pouco provável que as esquerdas encontrem o rumo no corpo da crise atual, é
parte do raciocínio de Martins. Elas, as esquerdas, tem se revelado incapazes
de interpretar dialeticamente o processo político e seu próprio lugar na
História, conforme ele.
Também
na linha racional de que muito dificilmente esse PT sobreviva, temos a opinião
de Daniel Aarão Reis, historiador da Universidade Federal Fluminense:
“Recorro
a uma expressão francesa: cure
d’opposition. Quando um partido perde o ímpeto renovador, e se esclerosa no
governo, começa o desgaste, que, em parte, é inevitável no exercício de
qualquer nível de poder. Nestas condições, de desgaste crescente, é melhor
fazer uma “cura” na oposição e refazer forças para tentar, mais tarde,
retornar.
Vamos
concretizar: depois de uma primeira administração infecunda, e de ter cometido
um grande estelionato eleitoral, omitindo os dados da crise e prometendo o que
não ia cumprir, Dilma foi procurar o dono do Bradesco para ser seu ministro da
Fazenda. Acabou ficando com o Joaquim Levy, indicado por ele, e aí a
enrascada aumentou ainda mais. Perdeu confiança de suas bases e não ganhou
apoio das elites. Isolou-se. Não teria sido melhor para ela e para o seu
partido terem ido para a oposição? Onde poderiam dar combate às “fórmulas”
tradicionais e nada milagrosas de superar as crises à custa dos trabalhadores? Dado
o impeachment, o PT e as forças de esquerda terão um horizonte de lutas
para se reinventarem. Para um Partido popular, não será melhor do que cumprir o
programa dos banqueiros, do capital financeiro, do agronegócio e dos
empreiteiros para “solucionar” a crise?
Não
haverá outro caminho. E o PT tem reservas para isto, apesar do desgaste. O
partido é nacionalmente muito ramificado e, acima de tudo, representa
interesses específicos que não serão defendidos por outros governos. Por outro
lado, o Partido e suas lideranças associam-se na memória das gentes a melhorias
substanciais do ponto de vista econômico, mas também de outros ângulos –
político, cultural. A cultura política prevalecente em muitas camadas
populares e até em níveis mais altos da sociedade é a cultura política
nacional-estatista, marcada pelo corporativismo. Ela tem uma longa história,
desde sua fundação, no quadro da ditadura do Estado Novo, liderada por Vargas.
Metamorfoseando-se, enraizou-se de modo profundo neste país. E o PT e suas lideranças
exprimem melhor do que qualquer outro, pelo menos por enquanto, esta cultura
política. Não custa repetir – o PT está muito enfraquecido, mas seu cortejo
fúnebre ainda não saiu. Agora, se ele continuar repetindo os erros cometidos, e
não se reinventar, é possível que, num prazo dado, outros aventureiros
apareçam para pôr a mão na sua coroa”.