terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Uma reforma na mente do brasileiro


Até tu, Sport Clube Internacional?

Estamos numa sinuca de bico, num impasse: se correr o bicho pega, se parar o bicho come.

O brasileiro bonzinho, risonho, camarada, fã de carnaval e futebol, tem uma história de ladroagem na sua índole. Não nasceu assim, fiou assim. Foi ensinado.

Quando os portugueses, principalmente, mas os outros também eram assim, chegaram ao paraíso “terra das araras vermelhas”, a primeira coisa que passou pelas suas cabeças foi a mesma ideia que passa pela cabeça daquelas pessoas que veem o caminhão sair da pista, virar e espalhar a carga (cerveja, frango congelado, açúcar, farinha, panela, tv) seja o que for: “Vamos nos fartar”. Levam tudo. Os colonizadores levaram madeira, óleo de baleia, pedras preciosas, ouro, prata, índios. Tudo furtado.

Assim, o político até então correto, bons trabalhos comunitários, ficha invejável, chega ao poder, vê o montão de dinheiro de ninguém à disposição e vem a mesma ideia mostrada no parágrafo anterior.

Foi assim com as capitanias hereditárias, com as terras ganhas do Tratado de Madrid, com a mina de Serra Pelada, com a construção de Brasília. E assim foi com a ocupação dos morros adjacentes aos centros urbanos. Seria assim com a Lua se fôssemos nós os primeiros a chegar lá.

Os de cima ensinam aos de baixo da escala social. Não o inverso. O exemplo salafrário, no caso brasileiro, veio de cima, vem de cima.

Com a ascensão de mentalidades voltadas para os chamados direitos humanos, foi crescendo a batalha por proteger legalmente quem estava por baixo. Vieram os direitos de negros, índios, mulheres, quilombolas, menores, excluídos, LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e bissexuais), presidiários e outros e outros.

Toda a batalha dos ativistas desses segmentos se baseava e se baseia em que “já que o pêndulo foi muito longe no sentido das chamadas classes dominantes, temos de puxar, puxar e fazê-lo voltar para muito aquém do que seja o equilíbrio”.

Pois bem, o pêndulo foi, foi, nem foi o que deveria ir, mas a coisa virou cultura, contracultura, subcultura: “a coisa pública é pública, não é de ninguém e se não é de ninguém, pode ser minha também”. Deu samba, deu rap, deu funk, deu balada, deu moda de viola, batidão, vaneira...

E quando chegou a ser cultura do culto do “mete a mão que dá”, não se trata de uma novidade, já existia desde os tempos de Cabral (o outro e este Cabral atual só botou em prática o que sempre foi “normal”).

A moda cultural não é só o “mete a mão que dá”, é também subverter as leis, passar por baixo ou por cima da cerca, furar a fila, quebrar a ordem, colocar a lei a meu favor seja como for. Novamente deu rima para qualquer balada.

Assim, gol de mão tem que valer, gol de impedimento também. E se o resultado não sair como eu quero, quebra tudo, move os céus.

Foi assim que o Internacional, de Porto Alegre, rebaixado pela primeira vez no Campeonato do Brasil, decidiu expor todo o desrespeito às regras do jogo. Se a regra me pune, que então mudem as regras. Toda vontade de fazer valer a própria força em momentos difíceis. Nos dias que se seguiram à tragédia com equipe da Chapecoense, o Inter só tinha atenções para a sua "tragédia particular", a sua queda não de dentro de um avião repleto de atletas, mas da classe A para a classe B do futebol brasileiro. A falta de capacidade de sentir a dor dos outros se completou como a alegação à Confederação Brasileira de Futebol (CBF), numa tentativa de virar a mesa, de agir fora das regras. Isso incluiria até e-mails falsos. Tudo para escapar da Série B.

É o famoso "jeitinho", a Lei de Gérson, que parece nunca deixar os brasileiros em paz. No esporte e fora dele. E não há atleta olímpico ou torcedor colombiano que parece ser capaz de nos tirar da nossa sina: a de virar a mesa assim que o jogo parecer duro demais.

Não se iludam: mossa cultura é terrível. Cadeia, ministério público, juízes duros, polícia eficaz, tudo será pouco. Pergunta ao Mao Tse Tung.

Pense nisso, discuta isso com seus amigos.