domingo, 4 de setembro de 2016

Um comunismo capitalista


O desafio aos partidos comunistas

O episódio Lula-Dilma-PT não pode ser olhado isoladamente e não apenas com os olhos no Brasil. Cuba, Argentina e o que virá na Venezuela e Bolívia precisam ser incluídos também com os olhos voltados para a Europa para a Ásia. O comunismo, como escrevi na postagem anterior tem de ser refeito. Nasceu para distribuir a riqueza que o capitalismo acumulou, mas não aprendeu a gerar riquezas. Quando a distribuição escasseia, vem a grita e o povo quer mais, o povo é capitalista, a nossa cultura universal é capitalista.

Então, agora, o PT e seus ideólogos começam a filosofar. O partido está morrendo, voltará àqueles 15% do eleitorado que é fissurado, os mesmos que saem às ruas para quebrar tudo, mas que na segunda-feira batem à porta das mesmas empresas para pedir emprego. Empregados, se declaram inimigos do empregador. Os sindicatos da CUT e os outros serão convidados a se reciclarem. Capital e Trabalho nunca foram inimigos. Juntos geram riqueza. E é nisso que o comunismo afundou. Se não tem riqueza gerada não tem riqueza para distribuir. O capitalismo não sabe distribuir, é verdade, mas vai ter que aprender, no mínimo, com o cooperativismo, que retribui a cada um por aquilo que criou, sem paternalismo, sem greve, sem contestação.   

O ideólogo Tarso Genro, ex-ministro da Justiça e ex-governador do depauperado estado do Rio Grande Sul, futuro miserável da Nação, já está planejando o partido que sucederá o PT e diz solenemente:

“Essa crise vem da falência de ideias do bolchevismo clássico (e do bolivariano romântico), com poucas exceções, da direitização da socialdemocracia no terreno da economia, que entende que a “globalização” é um processo técnico, que permite apenas um único caminho: da redução das funções públicas do Estado, combinada com políticas compensatórias, que não conseguem coesionar a sociedade em torno dos valores democráticos modernos. Esta crise vem, também, do fato de que o PT vem se tornando um partido mais pragmático do que ideológico, no sentido nobre desta expressão, deixando de se alimentar – em termos culturais e programáticos – fora do circuito do poder estatal, usando métodos tradicionais de governabilidade, para sobreviver aos processos eleitorais”.

É isso, Tarso, o PT dependurou seus adeptos nos cargos públicos à exaustão e tornou seus adeptos sofríveis trabalhadores da iniciativa privada, centrados no que o patrão podia e tinha obrigação de distribuir. Esqueceu produtividade, lealdade, compromisso. Decidiu buscar vantagens no grito, na paulada, na invasão, na depredação. Agora, vai lá dizer para estudantes, trabalhadores, militantes, que o capital é o objetivo de todos. E se o capital está com quem soube acumular, cabe a quem o queira também aprender a produzir com eficácia, poupar com parcimônia. E se o trabalhador não tem o capital, vamos ser parceiro do empreendedor, negociar produtividade, acabar com as greves, parar de bater em quem não é nosso inimigo e sim nosso parceiro.  

A esquerda na Venezuela afundou assim que o petróleo baixou de valor. Era uma economia baseada na extração, como é a dos árabes. O dia em que o petróleo sair de cena, todos os países árabes de esquerda e de direita se tornarão miseráveis. Já são. Os refugiados que oferecem ao mundo é a prova.

Palavras de Genro: “O PT surgiu num momento em que a classe operária industrial era fundamental para pensar uma utopia socialista e democrática e a USP era um referencial mundial para a esquerda. Os trabalhadores não são mais os mesmos, as empresas são muito diferentes, a globalização avançou e ocupou terrenos definitivos nas economias nacionais e qualquer ideia, socialista ou social – democrática de corte republicano, com liberdades públicas amplas, não pode ser pensada em torno dos contraditórios de uma sociedade de classes que já é inteiramente outra. Qual é esse projeto exige, por exemplo, dizer qual é o projeto para sair, no imediato, de uma crise econômica e financeira como essa que está aí, por dentro da democracia, criando novos consensos democráticos, o que a direita - por exemplo - não fez.

O mesmo Tarso reconhece que a saída de Dilma é o principal impulso criativo para promover uma nova Frente Política – que pode ser designada como de esquerda, porque está à esquerda da atual frente com o PMDB – mas que, na verdade, deve ser organizada em torno de um programa socialdemocrata renovado, como aquele que moveu Tsipras, na Grécia e move o Podemos, Esquerda Unida e parte do PS Espanhol, atualmente. Alguns companheiros me dizem que isso é muito pouco…Eu respondo a eles que isso é quase uma utopia, face a situação de hoje!”

O sociólogo da USP, José de Souza Martins, apesar de entender que “o ciclo político do PT não acabou”, confessa que o partido está em crise e vivendo um severo momento de desgaste e, quase certamente, de declínio eleitoral. Para Souza Martins não há dúvida que o comportamento do PT em relação à Dilma é de abandono, um modo de transformá-la, implicitamente, em bode expiatório da crise que não começa com ela e sim com o caso do mensalão. Não é crise dela e sim do partido.

Apesar de conhecer muito de política, o sociólogo defende que o PT é, ainda, o único partido que poderá ter um candidato certo e com chance de ser eleito em 2018, que é Lula. Se não estiver preso, claro. Ele acha que o PT tem um eleitorado cativo e duradouro, constituído por aqueles que optam pelo partido porque optaram por Lula e optaram por Lula porque nele enxergam a personificação de uma esperança profética e messiânica e que nenhum ouro partido político brasileiro tem essa característica, tão brasileira, e ainda decisiva nos enfrentamentos eleitorais. Seria um grande erro desconhecer ou mesmo desdenhar essa caraterística do processo político brasileiro.

Mas, como se vê, se o último maior líder petista solto acabar na cadeia, leva com ele o PT e quase toda a esquerda brasileira que estava com Lula e com o PT, decepcionados com a falta de pureza e virtude honrosa naquele operário da voz rouca.

Tudo isso porque não se pode esquecer que o PT é peça de uma trama articulada por ele, Lula, e que envolve vários partidos políticos e um grande número de pessoas com ele envolvidas. De certo modo, o declínio do partido arrasta consigo outros partidos e políticos não petistas, a começar no PMDB e com ele, o próprio vice-presidente da República. O impedimento de Dilma não encerra um ciclo, apenas o fragiliza. Nem fortalece o PMDB, que agora terá que propor uma nova aliança política de governo. Com algumas exceções significativas, uma parte dos ministros já recrutados mostra que o elenco dos nomes disponíveis para recompor o governo ou fundar um novo governo é pequeno e incapaz de injetar confiança em relação ao mandato do sucessor.

A fala do sociólogo revela um dado estarrecedor sobre o PT.

Para Souza Martins, a crise do governo e a crise do PT não constituem crises das esquerdas. O PT não é, propriamente, um partido de esquerda, a não ser na retórica publicitária. Os 13 anos de governos petistas deixaram isso claro. O partido manipulou os grupos populares, mas fez alianças significativas com grupos de direita, como é o caso do agronegócio. As verdadeiras esquerdas estão muito longe de alianças desse tipo. Por outro lado, as esquerdas brasileiras estão muito divididas e muito fragilizadas. De classe média, estão longe dos grupos referenciais de base da tradição de esquerda, como a classe operária e os trabalhadores rurais. Hoje estão predominantemente circunscritas a grupos constituintes do setor médio, como é o caso dos estudantes. Tendo, mesmo, que se valer dos menores de idade da escola média, como os que ocuparam as escolas nos últimos meses, para ter visibilidade política.

Mais perto, então, estaríamos do fim da esquerda. Ela nem existiu.

É pouco provável que as esquerdas encontrem o rumo no corpo da crise atual, é parte do raciocínio de Martins. Elas, as esquerdas, tem se revelado incapazes de interpretar dialeticamente o processo político e seu próprio lugar na História, conforme ele.

Também na linha racional de que muito dificilmente esse PT sobreviva, temos a opinião de Daniel Aarão Reis, historiador da Universidade Federal Fluminense:

“Recorro a uma expressão francesa: cure d’opposition. Quando um partido perde o ímpeto renovador, e se esclerosa no governo, começa o desgaste, que, em parte, é inevitável no exercício de qualquer nível de poder. Nestas condições, de desgaste crescente, é melhor fazer uma “cura” na oposição e refazer forças para tentar, mais tarde, retornar.

Vamos concretizar: depois de uma primeira administração infecunda, e de ter cometido um grande estelionato eleitoral, omitindo os dados da crise e prometendo o que não ia cumprir, Dilma foi procurar o dono do Bradesco para ser seu ministro da Fazenda. Acabou ficando com o Joaquim Levy, indicado por ele, e aí a enrascada aumentou ainda mais. Perdeu confiança de suas bases e não ganhou apoio das elites. Isolou-se. Não teria sido melhor para ela e para o seu partido terem ido para a oposição? Onde poderiam dar combate às “fórmulas” tradicionais e nada milagrosas de superar as crises à custa dos trabalhadores? Dado o impeachment, o PT e as forças de esquerda terão um horizonte de lutas para se reinventarem. Para um Partido popular, não será melhor do que cumprir o programa dos banqueiros, do capital financeiro, do agronegócio e dos empreiteiros para “solucionar” a crise?

Não haverá outro caminho. E o PT tem reservas para isto, apesar do desgaste. O partido é nacionalmente muito ramificado e, acima de tudo, representa interesses específicos que não serão defendidos por outros governos. Por outro lado, o Partido e suas lideranças associam-se na memória das gentes a melhorias substanciais do ponto de vista econômico, mas também de outros ângulos – político, cultural. A cultura política prevalecente em muitas camadas populares e até em níveis mais altos da sociedade é a cultura política nacional-estatista, marcada pelo corporativismo. Ela tem uma longa história, desde sua fundação, no quadro da ditadura do Estado Novo, liderada por Vargas. Metamorfoseando-se, enraizou-se de modo profundo neste país. E o PT e suas lideranças exprimem melhor do que qualquer outro, pelo menos por enquanto, esta cultura política. Não custa repetir – o PT está muito enfraquecido, mas seu cortejo fúnebre ainda não saiu. Agora, se ele continuar repetindo os erros cometidos, e não se reinventar, é possível que, num prazo dado, outros aventureiros apareçam para pôr a mão na sua coroa”.

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