Até
tu, Sport Clube Internacional?
Estamos
numa sinuca de bico, num impasse: se correr o bicho pega, se parar o bicho
come.
O
brasileiro bonzinho, risonho, camarada, fã de carnaval e futebol, tem uma
história de ladroagem na sua índole. Não nasceu assim, fiou assim. Foi
ensinado.
Quando
os portugueses, principalmente, mas os outros também eram assim, chegaram ao
paraíso “terra das araras vermelhas”, a primeira coisa que passou pelas suas
cabeças foi a mesma ideia que passa pela cabeça daquelas pessoas que veem o
caminhão sair da pista, virar e espalhar a carga (cerveja, frango congelado,
açúcar, farinha, panela, tv) seja o que for: “Vamos nos fartar”. Levam tudo. Os
colonizadores levaram madeira, óleo de baleia, pedras preciosas, ouro, prata,
índios. Tudo furtado.
Assim,
o político até então correto, bons trabalhos comunitários, ficha invejável,
chega ao poder, vê o montão de dinheiro de ninguém à disposição e vem a mesma
ideia mostrada no parágrafo anterior.
Foi
assim com as capitanias hereditárias, com as terras ganhas do Tratado de
Madrid, com a mina de Serra Pelada, com a construção de Brasília. E assim foi com
a ocupação dos morros adjacentes aos centros urbanos. Seria assim com a Lua se
fôssemos nós os primeiros a chegar lá.
Os
de cima ensinam aos de baixo da escala social. Não o inverso. O exemplo
salafrário, no caso brasileiro, veio de cima, vem de cima.
Com
a ascensão de mentalidades voltadas para os chamados direitos humanos, foi
crescendo a batalha por proteger legalmente quem estava por baixo. Vieram os
direitos de negros, índios, mulheres, quilombolas, menores, excluídos, LGBT
(lésbicas, gays, bissexuais, travestis e bissexuais), presidiários e outros e
outros.
Toda
a batalha dos ativistas desses segmentos se baseava e se baseia em que “já que
o pêndulo foi muito longe no sentido das chamadas classes dominantes, temos de
puxar, puxar e fazê-lo voltar para muito aquém do que seja o equilíbrio”.
Pois
bem, o pêndulo foi, foi, nem foi o que deveria ir, mas a coisa virou cultura,
contracultura, subcultura: “a coisa pública é pública, não é de ninguém e se
não é de ninguém, pode ser minha também”. Deu samba, deu rap, deu funk, deu
balada, deu moda de viola, batidão, vaneira...
E
quando chegou a ser cultura do culto do “mete a mão que dá”, não se trata de
uma novidade, já existia desde os tempos de Cabral (o outro e este Cabral atual
só botou em prática o que sempre foi “normal”).
A
moda cultural não é só o “mete a mão que dá”, é também subverter as leis, passar
por baixo ou por cima da cerca, furar a fila, quebrar a ordem, colocar a lei a
meu favor seja como for. Novamente deu rima para qualquer balada.
Assim,
gol de mão tem que valer, gol de impedimento também. E se o resultado não sair
como eu quero, quebra tudo, move os céus.
Foi
assim que o Internacional, de Porto Alegre, rebaixado pela primeira vez no
Campeonato do Brasil, decidiu expor todo o desrespeito às regras do jogo. Se a
regra me pune, que então mudem as regras. Toda vontade de fazer valer a própria
força em momentos difíceis. Nos dias que se seguiram à tragédia com equipe da
Chapecoense, o Inter só tinha atenções para a sua "tragédia
particular", a sua queda não de dentro de um avião repleto de atletas, mas
da classe A para a classe B do futebol brasileiro. A falta de capacidade de
sentir a dor dos outros se completou como a alegação à Confederação Brasileira
de Futebol (CBF), numa tentativa de virar a mesa, de agir fora das regras. Isso
incluiria até e-mails falsos. Tudo para escapar da Série B.
É
o famoso "jeitinho", a Lei de Gérson, que parece nunca deixar os
brasileiros em paz. No esporte e fora dele. E não há atleta olímpico ou
torcedor colombiano que parece ser capaz de nos tirar da nossa sina: a de virar
a mesa assim que o jogo parecer duro demais.
Não
se iludam: mossa cultura é terrível. Cadeia, ministério público, juízes duros,
polícia eficaz, tudo será pouco. Pergunta ao Mao Tse Tung.
Pense
nisso, discuta isso com seus amigos.
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