A tristeza de um antigo eleitor
Meu primeiro voto elegeu Juscelino
Kubitschek.
E concluo que nos últimos 90 anos de sua história,
o meu país registra que apenas três presidentes eleitos concluíram os mandatos
para os quais foram eleitos e reeleitos.
Washington Luiz foi derrubado; Getúlio
Vargas se suicidou; Jânio renunciou e seu vice (Jango) foi derrubado; Collor
foi cassado; Dilma foi cassada. Então já dá para deduzir que JK, FHC e Lula
foram os únicos três a concluir seus tempos de mandato. Os demais presidentes
não receberam votos populares.
É muito pouco para dizer que temos
democracia. É um democratismo meia boca, uma democracia fajuta.
O antro deve estar no Congresso onde os
eleitos fazem qualquer negócio em troca de compromisso com os temas colocados
para deliberar. O compromisso não é com a Nação, é com as vantagens dos
congressistas.
Por conta dessa deturpação, a Suprema Corte
é composta por magistrados marcadamente comprometidos com quem os indicou e os
aprovou. Todo o caminho da justiça, desde a Comarca de primeiro grau, é
palmilhado por integrantes concursados que fizeram jus à conquista, que
sabemos, também não é perfeita, mas é a que temos. E quando chega ao Supremo,
último degrau da Justiça, tem ministro que vota não pelo que é justo e direito,
mas segundo sua capacidade de argumentar pra lá ou pra cá, segundo suas
ligações com aqueles que o conduziram ao cargo.
Desde Pedro II temos corrupção escancarada
no poder e todos nós tínhamos conhecimento disso, não pelos livros da História,
mas pela capacidade de interpretá-los, menos a imprensa, menos os servidores do
poder corrupto e menos todo o sistema judicial capitaneado pelo eleitoral.
A mais absurda última decisão foi manter a
chapa Dilma-Temer quando todas as provas indicavam que houve crime eleitoral.
Mas os ministros do TSE preferiram assassinar a Lei e manter a farsa.
Pois, bem, a Lava Jato parece estar
cumprindo um papel histórico que é da justiça, consegue trazer consigo uma boa
parte da imprensa e agora os servidores, mas, principalmente, boa parte do povo
brasileiro que já decidiu dar um basta na ladroeira.
Estou convicto de que barrar apenas a
ladroeira, é pouco.
E o que é pior: chegamos a isso e sucateamos
o País. Os serviços públicos apodreceram. Sobram a Receita Federal e parte da Polícia
Federal. E os impostos consomem 34% do Produto Interno Bruto.
Vejo, entristecido, as guerras no Facebook
e nas redes sociais muitas vezes colocando em choque pessoas que na realidade
são amigas de longa data, um defendendo A e acusando B, outra defendendo B e
acusando A, enquanto nada, nada mesmo, é falado ou providenciado para corrigir
os verdadeiros e cruciais males de nosso país. Dá impressão que A quer vencer
para se apoderar dos privilégios de B e vice versa.
Não deveríamos estar caminhando para
eleições gerais e sim para uma Constituinte que fosse capaz de varrer o lixo
jurídico. Este país de advogados construiu um emaranhado capaz de enrolar
qualquer coisa como justa. Os privilégios assustam, amortalham o futuro da
legalidade. A imprensa não é livre, está amarrada na origem. Mente e inventa.
Gente, vamos acordar. Precisamos discutir
na Internet, a própria Internet, o sistema eleitoral, os partidos, os impostos,
a remuneração de quem tem cargo público, a transparência, a educação, a
segurança, a previdência, o foro privilegiado, a melhoria da ficha limpa, a tributação
das igrejas e suas rádios e tevês, tanta coisa que virou privilégio de uns e
cativeiro de outros. E não nos enganemos, se não for debaixo para cima, jamais
virá. Se depender de vereadores, prefeitos, deputados estaduais, governadores,
deputados federais, senadores, presidentes, tudo ficará como está ou piorará.
E então você poderia pensar: para quem eu
daria eu meu voto?
Lógico que seria para aqueles que
assumissem o compromisso de limpar a pauta do parágrafo anterior. Não acredito que
haja. Irei entristecido para a urna e, neste instante, lhe garanto, não sei em
quem eu votaria. Branco e nulo, não, com certeza.