Dois ou três brasileiros na esquina
Um dos brasileiros, o
otimista, cumprimenta o amigo e sai logo dizendo: agora vai. Confirma-se o que
o experiente político, ex-presidente José Sarney, disse sobre a Lava Jato. Ele
sabe das coisas. Com a autoridade de seus 60 anos de vida pública, raposa
velha, e um talento nato para resistir a tormentas, Sarney disse na conversa
gravada pelo bombástico juruna Sérgio Machado que a delação premiada de
executivos da Odebrecht provocaria um estrago digno de "uma metralhadora
de ponto 100" (se referia ao calibre, 100 pontos de uma polegada, o que
quer dizer balística com uma polegada de grossura).
A velha raposa
externava o temor reinante na classe política com a possibilidade da revelação
dos detalhes da contabilidade clandestina da maior empreiteira do país. Fazia
coro com as autoridades empenhadas em melar a investigação do petrolão.
Mas, a operação
abafa, como se sabe, fracassou.
A delação de
diretores e funcionários da Odebrecht já está sendo feita e os seus efeitos se
farão sentir. Não só ela como a colaboração do ex-chefe da OAS, aquela empresa
que fez a reforma do sítio que servia de refúgio para o ex-presidente Lula e
também reformou o tríplex de Guarujá. Em vez de uma, são duas as metralhadoras
engatilhadas, ambas com munição de sobra para permitir que a Lava-Jato feche a
lista de políticos beneficiados com propina e identifique a rede de comando do
maior esquema de corrupção já investigado no país e no mundo. E ainda tem o
Sérgio Machado que corre atrás com a navalha na mão.
O poder de fogo é
ainda mais devastador, letal e definitivo do que imaginava o experiente Sarney.
Tudo vem abaixo. Não
ficará pedra sobre pedra. Mais de 250 nomes de políticos e cúmplices de
políticos irão parar na cadeia e o Brasil ficará livre dessa bandidagem.
O outro brasileiro,
pessimista, que havia escutado pacientemente, retrucou: terminou? Ao que o otimista
aduziu, não terminei ainda, mas o que você tem a dizer?
Tenho muito a dizer.
Não sou ingênuo como você. Eu recordo dos anões do orçamento, que foram
pilhados roubando, perderam o mandato e foram pra cadeia. Lembro do esquema do
Collor. Alguns meses depois estava ele exibindo as sentenças anulatórias dos
processos movidos contra ele. Lembro do mensalão. Alguns meses depois os
condenados estavam em casa no regime de prisão aberta. Mesmo durante a Lava
Jato havia réus ainda metendo a mão no dinheiro sujo.
Enquanto as campanhas
políticas forem tão caras como são em nosso país, qualquer político tem tudo
para corromper-se e assim manter-se no poder, eleição após eleição.
A poucos metros de
distância estava um terceiro brasileiro, que pediu licença para entrar na conversa
dos dois. Os dois aceitaram a intromissão e o terceiro brasileiro emitiu sua opinião.
A questão brasileira
vai além do político, além das leis eleitorais e vai parar no caldo cultural
que se alastrou entre os brasileiros: o jeitinho, a prática de furar a fila, o
suborno do guarda, a mania de levar vantagem...
Sempre que ocorre um
acidente com um caminhão carregado de algum produto, alimento, bebida, eletrodomésticos
portáteis, o que vemos? Em questão de minutos os saqueadores levam tudo, esteja
ou não esteja a carga no seguro. Quem faz isso? Todos quantos morem nas
redondezas ou estejam passando pelo local. E a sonegação de impostos? E os
dribles na lei seca? E os arremedos da declaração de renda?
O otimista e o
pessimista ficaram meio boquiabertos enquanto o terceiro brasileiro enchia o
peito e continuava.
Enquanto não
acontecer uma revolução educacional, com boas escolas, bons professores e bem
pagos, bons currículos escolares, capazes de formar as novas gerações, o Brasil
não tem jeito. Os brasileiros, principalmente do futuro, carecem daquilo que
maldosamente chamam de lavagem cerebral, esta, claro, no bom sentido.
Tenho dito. Passem
bem.
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