sábado, 4 de junho de 2016

Algumas verdades que não querem calar


Dois ou três brasileiros na esquina

Um dos brasileiros, o otimista, cumprimenta o amigo e sai logo dizendo: agora vai. Confirma-se o que o experiente político, ex-presidente José Sarney, disse sobre a Lava Jato. Ele sabe das coisas. Com a autoridade de seus 60 anos de vida pública, raposa velha, e um talento nato para resistir a tormentas, Sarney disse na conversa gravada pelo bombástico juruna Sérgio Machado que a delação premiada de executivos da Odebrecht provocaria um estrago digno de "uma metralhadora de ponto 100" (se referia ao calibre, 100 pontos de uma polegada, o que quer dizer balística com uma polegada de grossura).

A velha raposa externava o temor reinante na classe política com a possibilidade da revelação dos detalhes da contabilidade clandestina da maior empreiteira do país. Fazia coro com as autoridades empenhadas em melar a investigação do petrolão.

Mas, a operação abafa, como se sabe, fracassou.

A delação de diretores e funcionários da Odebrecht já está sendo feita e os seus efeitos se farão sentir. Não só ela como a colaboração do ex-­chefe da OAS, aquela empresa que fez a reforma do sítio que servia de refúgio para o ex-presidente Lula e também reformou o tríplex de Guarujá. Em vez de uma, são duas as metralhadoras engatilhadas, ambas com munição de sobra para permitir que a Lava-­Jato feche a lista de políticos beneficiados com propina e identifique a rede de comando do maior esquema de corrupção já investigado no país e no mundo. E ainda tem o Sérgio Machado que corre atrás com a navalha na mão.

O poder de fogo é ainda mais devastador, letal e definitivo do que imaginava o experiente Sarney.

Tudo vem abaixo. Não ficará pedra sobre pedra. Mais de 250 nomes de políticos e cúmplices de políticos irão parar na cadeia e o Brasil ficará livre dessa bandidagem.

O outro brasileiro, pessimista, que havia escutado pacientemente, retrucou: terminou? Ao que o otimista aduziu, não terminei ainda, mas o que você tem a dizer?

Tenho muito a dizer. Não sou ingênuo como você. Eu recordo dos anões do orçamento, que foram pilhados roubando, perderam o mandato e foram pra cadeia. Lembro do esquema do Collor. Alguns meses depois estava ele exibindo as sentenças anulatórias dos processos movidos contra ele. Lembro do mensalão. Alguns meses depois os condenados estavam em casa no regime de prisão aberta. Mesmo durante a Lava Jato havia réus ainda metendo a mão no dinheiro sujo.

Enquanto as campanhas políticas forem tão caras como são em nosso país, qualquer político tem tudo para corromper-se e assim manter-se no poder, eleição após eleição.

A poucos metros de distância estava um terceiro brasileiro, que pediu licença para entrar na conversa dos dois. Os dois aceitaram a intromissão e o terceiro brasileiro emitiu sua opinião.

A questão brasileira vai além do político, além das leis eleitorais e vai parar no caldo cultural que se alastrou entre os brasileiros: o jeitinho, a prática de furar a fila, o suborno do guarda, a mania de levar vantagem...

Sempre que ocorre um acidente com um caminhão carregado de algum produto, alimento, bebida, eletrodomésticos portáteis, o que vemos? Em questão de minutos os saqueadores levam tudo, esteja ou não esteja a carga no seguro. Quem faz isso? Todos quantos morem nas redondezas ou estejam passando pelo local. E a sonegação de impostos? E os dribles na lei seca? E os arremedos da declaração de renda?

O otimista e o pessimista ficaram meio boquiabertos enquanto o terceiro brasileiro enchia o peito e continuava.

Enquanto não acontecer uma revolução educacional, com boas escolas, bons professores e bem pagos, bons currículos escolares, capazes de formar as novas gerações, o Brasil não tem jeito. Os brasileiros, principalmente do futuro, carecem daquilo que maldosamente chamam de lavagem cerebral, esta, claro, no bom sentido.

Tenho dito. Passem bem.

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